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Omnibus

Eu vi um deles no ônibus, quando ia para o trabalho.

Sempre evitamos contato visual direto, mas ficamos observando de canto de olho. Eles criam uma atmosfera de tensão quando estão por perto. As pessoas vigiam porque sentem uma mistura de medo e curiosidade. Medo de que eles farão algo agressivo ou, pior ainda, que eles falem conosco. Curiosidade porque… não sei por quê. Essa é a definição de curiosidade afinal: ser atraído pelo que você não sabe.

Entre medo e curiosidade, eu observei aquele indivíduo: um louco.

Como sei que ele era louco? Simples. Ele estava parado na frente da porta do ônibus, falando sozinho, gesticulando para si mesmo e, a cada curva e lombada, realizava uma dança desengonçada para recuperar o equilíbrio. Resumindo, estava tendo uma conversa interior, porém do lado errado, onde todos os outros passageiros podiam observá-la. E ele não se importava com isso. Essa é a definição de loucura atualmente, não é? Agir sem se importar com o quê os outros pensam, atraindo atenção e destacando-se da massa.

A fala dele não era conexa e eu consegui captar apenas fragmentos.

…minha mulher chorou, eu não, eu não…

Ele estava vestido casualmente, com uma calça jeans e uma blusa. Carregava um guarda-chuva debaixo do braço, mas só percebi isso mais tarde, pois, como disse, observava apenas de canto de olho.

Ele não estava completamente absorvo em seus pensamentos, porque viu que o ônibus passava em frente a um batalhão do corpo de bombeiros. Isso gerou nele uma onda de comentários mais enérgicos.

…aí, bombeiro, bombeiro morre todo dia, que se exploda, polícia e bombeiro morre todo dia…

Seguindo a minha natureza humana, julguei que aquele homem, aquele louco, tivesse cometido infrações no passado, fora punido e guardava ressentimentos contra os oficiais da lei. O próximo fragmento que captei, no entanto, foi um soco no meu preconceito e uma reviravolta na trama que seria digna de um roteiro fictício (mas, infelizmente, isso é uma crônica).

…10 anos de bombeiro? não, deixa eu ver, 9, 10, 2 de PM e 9 de bombeiro, tô há 9 anos na corporação…

O monólogo daquele indivíduo tornou-se meu objeto de estudo pelos poucos minutos de viagem que ainda restavam. Criei cenários e hipóteses. Ele era casado, bombeiro, houve uma tragédia e choro, não dele, apenas da mulher. Alguém morreu? Provavelmente.

Um novo fragmento e, na minha mente, o ex-louco transmutara-se em um personagem de tragédia shakespeariana.

…também falei, quando eu for embora não volto mais, ela que arranje outro homem, não é pra ficar sofrendo, ela que arranje outro homem…

Ele disse segurando o choro, soluçando. Foi a última coisa que consegui ouvir. Meu ponto chegou e eu desci. Ele também.

Enquanto caminhava em direção ao meu trabalho, observei mais um pouco. Ele ficou parado no ponto de ônibus por alguns segundos, olhando para o chão, e depois atravessou a rua. Fiquei me perguntando se ele tinha alguma ideia de onde estava e para onde ia, ou se caminhava a esmo.

Uma ponta de solidariedade surgiu e pensei em perguntar se ele precisava de ajuda. Não perguntei, obviamente, porque não tenho tempo para loucuras.

 


Esse texto faz parte de coletânea “Pangea e outros escritos”, que pode ser baixada gratuitamente neste link: http://pagsocial.com/OTA/ebook-pangea-e-outros-escritos