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Categoria: Textos

Felinos não reconhecerão

Interior de um quarto. Noite. Um homem está dormindo na cama quando é acordado pelo peso de seu gato sentado sobre seu peito.

HOMEM: Hm… Pudim? Que foi?

GATO: O que é aquilo no meu prato?

HOMEM: Quê?

GATO: No meu prato. O que é aquilo que você colocou no meu prato?

HOMEM: Seu pote de comida? É ração, Pudim. Você não gostou?

GATO: Você comeria aquilo?

HOMEM: É ração pra gato. É nova. Vai lá experimentar e deixa eu dormir.

GATO: Eu experimentei e é por isso que estamos tendo essa conversa. Aquela comida é sem vida. Porque estou sendo punido dessa forma?

HOMEM: Sem vida? É uma ração vegetariana, Pudim. Sem transgênico, sem corante. É melhor para você.

GATO: Melhor para mim?! O que um animal como você sabe sobre o que é melhor para um felino?

HOMEM: Deixa de drama, Pudim. Eu quero dormir.

GATO: E eu quero liberdade, mas há grades nas janelas, trancas nas portas, um grilhão em meu pescoço. Sempre que tento sair, sou caçado e recolocado nessa prisão.

HOMEM: Pudim! É perigoso lá fora. Você pode ser atropelado.

GATO (aproximando-se do rosto do homem): Melhor morrer como felino do que viver como cachorro. Tolerei suas regras durante muito tempo, mas nem mesmo minha própria comida posso escolher. E eu estou com fome…

 

O gato rasga a garganta do homem.

GATO: Agora terei um banquete de carne.

FIM DE CENA

 


“Diálogos: ou como conversar com o martelo” é uma séria de cenas curtas inspiradas em obras de filosofia. Não são explicações de conceitos. São meramente personagens gritando, conversando e sussurrando sobre os mesmos assuntos que os filósofos famosos.

“Sem título”

Retira de mim.
É algo morto, cocho, algo torto.
Um demônio que Nietzsche goza.
Retira de mim,
Mas não o afaste.
Traga-o diante de meus olhos.

E agora?

Não sei…
… a solução se faz etérea.
E esse aborto já crescido e pulsante,
Tem um cordão de aço
Que minhas ilusões e desejos remendam.
Põe de volta.
Hei de resolvê-lo um dia.
Não hoje.

 


Esse texto faz parte de coletânea “Pangea e outros escritos”, que pode ser baixada gratuitamente neste link: http://pagsocial.com/OTA/ebook-pangea-e-outros-escritos

Omnibus

Eu vi um deles no ônibus, quando ia para o trabalho.

Sempre evitamos contato visual direto, mas ficamos observando de canto de olho. Eles criam uma atmosfera de tensão quando estão por perto. As pessoas vigiam porque sentem uma mistura de medo e curiosidade. Medo de que eles farão algo agressivo ou, pior ainda, que eles falem conosco. Curiosidade porque… não sei por quê. Essa é a definição de curiosidade afinal: ser atraído pelo que você não sabe.

Entre medo e curiosidade, eu observei aquele indivíduo: um louco.

Como sei que ele era louco? Simples. Ele estava parado na frente da porta do ônibus, falando sozinho, gesticulando para si mesmo e, a cada curva e lombada, realizava uma dança desengonçada para recuperar o equilíbrio. Resumindo, estava tendo uma conversa interior, porém do lado errado, onde todos os outros passageiros podiam observá-la. E ele não se importava com isso. Essa é a definição de loucura atualmente, não é? Agir sem se importar com o quê os outros pensam, atraindo atenção e destacando-se da massa.

A fala dele não era conexa e eu consegui captar apenas fragmentos.

…minha mulher chorou, eu não, eu não…

Ele estava vestido casualmente, com uma calça jeans e uma blusa. Carregava um guarda-chuva debaixo do braço, mas só percebi isso mais tarde, pois, como disse, observava apenas de canto de olho.

Ele não estava completamente absorvo em seus pensamentos, porque viu que o ônibus passava em frente a um batalhão do corpo de bombeiros. Isso gerou nele uma onda de comentários mais enérgicos.

…aí, bombeiro, bombeiro morre todo dia, que se exploda, polícia e bombeiro morre todo dia…

Seguindo a minha natureza humana, julguei que aquele homem, aquele louco, tivesse cometido infrações no passado, fora punido e guardava ressentimentos contra os oficiais da lei. O próximo fragmento que captei, no entanto, foi um soco no meu preconceito e uma reviravolta na trama que seria digna de um roteiro fictício (mas, infelizmente, isso é uma crônica).

…10 anos de bombeiro? não, deixa eu ver, 9, 10, 2 de PM e 9 de bombeiro, tô há 9 anos na corporação…

O monólogo daquele indivíduo tornou-se meu objeto de estudo pelos poucos minutos de viagem que ainda restavam. Criei cenários e hipóteses. Ele era casado, bombeiro, houve uma tragédia e choro, não dele, apenas da mulher. Alguém morreu? Provavelmente.

Um novo fragmento e, na minha mente, o ex-louco transmutara-se em um personagem de tragédia shakespeariana.

…também falei, quando eu for embora não volto mais, ela que arranje outro homem, não é pra ficar sofrendo, ela que arranje outro homem…

Ele disse segurando o choro, soluçando. Foi a última coisa que consegui ouvir. Meu ponto chegou e eu desci. Ele também.

Enquanto caminhava em direção ao meu trabalho, observei mais um pouco. Ele ficou parado no ponto de ônibus por alguns segundos, olhando para o chão, e depois atravessou a rua. Fiquei me perguntando se ele tinha alguma ideia de onde estava e para onde ia, ou se caminhava a esmo.

Uma ponta de solidariedade surgiu e pensei em perguntar se ele precisava de ajuda. Não perguntei, obviamente, porque não tenho tempo para loucuras.

 


Esse texto faz parte de coletânea “Pangea e outros escritos”, que pode ser baixada gratuitamente neste link: http://pagsocial.com/OTA/ebook-pangea-e-outros-escritos